quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quase cômico e Quase trágico.

Minutos antes de terminar a aula, tudo escureceu rápido e inexplicável. As reações foram as mais diversas. Uma amiga agarrou a mão do colega que estava mais próximo, uns riram, outros ficaram estáticos. Por poucos segundos, mas o suficiente para notar tais variações de comportamento. Com a mesma velocidade que a luz se foi, voltou normalmente. Mesmo assim ainda era possível ouvir alguns gracejos. Minutos depois, quando todos pensavam que a situação havia sido controlada, a luz desaparece mais uma vez. E os gracejos voltam, alguns mais sofisticados e engraçados, outros evidentemente clichês. Não havia mais nada pra se fazer ali. Entramos no carro, e como de praxe as discussões relativas às ciências humanas começaram. Notamos que o blecaute ia muito além do que imaginávamos. Já na estrada, uma de nós repara que o céu estava avermelhado, formando umas nuvens estranhas. No começo todas brincaram, uma dizia que era o apocalipse, outra que caira um meteoro, outra que 2012 havia sido antecipado e por último que era simplesmente a Petroquímica que estava próxima. Cada uma tinha sua teoria para explicar o que não sabiam explicar. A estrada parecia não ter fim, assim como o céu avermelhado que parecia expandir-se a cada km que andávamos. Mesmo rindo e pensando racionalmente que aquilo não passava de alguma reação física, vieram as dúvidas. E se realmente for o apocalipse? Se for mesmo o fim do mundo? Se for mesmo alguma explosão cósmica? Acabaríamos assim? Como um nada, sujeitas a acidentes meramente casuais? Ou vítimas de uma decisão divina?. A graça do acontecimento deu lugar a uma série de reflexões. Um medo, mesmo que aparentemente ridículo. Finalmente a estrada tinha acabado e não havia mais sinal daquele céu misterioso. Cada uma foi para sua casa com sua teoria e seu medo. Uma hora depois a situação foi normalizada. Fui atingida por um imenso alívio seguido de uma culpa de ter questionado anos de ateísmo. Por alguns minutos não me faltou somente a luz, me faltaram principalmente as certezas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Invisível.

O dia era cinza, tão cinza que refletia a fisionomia casmurra das pessoas apressadas na rua. Caminhei como todos, num ritmo acelerado e distraído. Parei quando avistei um farol aparentemente quebrado. E enquanto espero alguma solução, ao meu lado reparei um pequeno movimento nos sacos de lixo. Esquivei-me pensando ser um cachorro farejando alimento. Olhei para trás, para verificar qual era minha distância do animal. E não era um cachorro que buscava sobreviver do lixo, era um outro animal. Um animal considerado o mais racional e complexo de todos. Mas que ali não passava de um incômodo social. Era uma senhora que comia os restos, que se igualava a eles. Observei-a perplexa, angustiada, com um nó na garganta e uma sensação de impotência. Finalmente o farol abriu, atravessei a rua com um certo alívio. Já do outro lado, virei-me para observá-la mais um pouco. A senhora não estava mais ali. E para todos que não buscaram uma distração enquanto o farol não abria. Ela nunca esteve.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Poema em linha reta.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O início.

O primeiro beijo. O tão aguardado beijo, aquele que a fez melecar os espelhos, enfiar a língua num copo de água com gelo e até a laranja não escapou. Rendeu-se até a receitas de revistas femininas tão bobinhas quanto ela na época. Decidiu que daquele ano não passaria. Afinal, estava com 15 anos. Andava de metrô sozinha, saia com mais frequência, uma liberdade que se agora parece ínfima, naquele momento para ela era como se descobrisse um novo mundo. Um mundo fora do seu bairro, um mundo que era divertido e cruel. Flertava diariamente com um menino do terceiro colegial, o menino alto do cabelo comprido, belo sorriso, olho apertadinho e mãos grandes. Ele se quer sabia que ela existia. Todos os dias na hora do intervalo a primeira coisa que fazia era procurá-lo, sabia de cor quem eram seus amigos e as salas que ele teria aula no dia. Um dia, conversando com uma amiga que acabara de confidenciar um segredo, sentiu-se a vontade para dizer o seu. Gostava do menino alto do cabelo comprido, belo sorriso, olho apertadinho e mãos grandes. Sua amiga então resolveu tomar a atitude que ela nunca teria coragem. Conversou com ele. Disse que havia uma amiga interessada e se gostaria de conhecê-la. Respondeu que conheceria, e que a esperaria na saída. Na saída portanto ela não conseguia raciocinar, e se ele a achasse feia, desinteressante, antipática? Desceu as escadas tremendo, sua amiga a esperava com ele. Queria sumir, jurou naquele momento que nunca mais contaria nada a ela. Ele a olhou de uma forma galanteadora, perguntou seu nome e conversaram um pouco sobre coisas aleatórias. Não sabia qual impressão estava causando, se desconfiara que ela era uma bv que morria de medo de relações afetivas ou se era um atrevidinha que queria pegar um dos caras mais pops do terceiro ano. Achou melhor ir embora. O menino alto do cabelo comprido, belo sorriso, olho apertadinho e mãos grandes aproximou-se e ela se afastou. Disse que conversariam mais no dia seguinte. Aquele dia mal conseguia dormir, ficou atordoada com a possibilidade de beijar justamente aquele que ela pensava muito durante o dia. Como seria? Não sabia. No dia seguinte resolveram conversar mais um pouco, ele não parecia tão interessante intelectualmente quanto ela imaginava. Mas tudo estava bem, isso não importava tanto naquele momento. Acabou o assunto. E agora? Era a hora. Ele se aproximava, o coração acelerava e ele a beijou. Era tão diferente do espelho, do copo com gelo, da laranja. Mas só sabia que era bem melhor. Deliciosamente melhor. Ficaram alguns dias, conversaram sobre mais coisas aleatórias, beijaram-se escondidos, foram pegos. Não era ruim ficar com ele, mas estava bem longe de todo aquele platonismo que ela criara. Um dia conversaram e viram que não gostavam mais tanto de ficar juntos, as diferenças falaram mais alto que as afinidades. Decidiram ser amigos, não conseguiram. Não tinham nada para cultivar, a não ser alguns beijos atrás do banheiro feminino. No ano seguinte ele terminou o colegial e ela nunca mais o viu. Mal lembrava que ele existia, como pode? Afinal, era o menino alto do cabelo comprido, belo sorriso, olho apertadinho e mãos grandes.

Um Hamlet moderno.

Tudo ocorrera como sempre, acordou a muito custo devido aos seus horários desorganizados. Levantou-se, saudou o sol tímido, reparou que sua olheira estava maior que no dia anterior, mas não deu muita importância. Há muito tempo seu lado metrôssexual não se manifestava mais. Naquele momento um simples banho quente parecia ser mais interessante do que contemplar as olheiras. Mais um dia começara, na verdade ele sabia que não era mais um dia, e sim, menos um. Deixou as constatações temporais de lado e após o banho quentíssimo foi averiguar se havia alguma novidade no seu mundo virtual. Tudo como sempre, um ou outro recado, um ou outro convite, um ou outro papo no msn. E nisso passou horas, para horror de seu ortopedista. Entre um clique e outro aumentava a angústia de notar o quanto seus dias tornaram-se iguais, já não fazia nada há dias. Sentia-se bombardeado por tudo e por todos. E ao mesmo tempo que era alvo, era também tão insignificante, que se morresse naquele momento ninguém o perceberia. Seu perfil certamente continuaria recebendo os mesmos recados clichês de colegas com os quais havia trocado meia dúzia de palavras. Trocou o Status do msn, de Online passou a Ausente, foi até a janela saudar mais uma vez o sol tímido. Aquela poderia ser a última vez, quem definiria isso? Ateu convicto, não deixava alienar-se pelo além. Apenas o tempo o diria quando seria a última vez. Continuou ali, olhando para o céu e sorrindo ao lembrar-se que já havia perdido o ponto de ônibus da sua casa por admirar as nuvens. Foi interrompido por um leve desconforto, uma coceira chata nas pernas, uma formiga inconveniente insistia em atormentar-lhe. Não teve alternativa, decidiu que a formiga morreria ali. Foi nesse instante que uma idéia paradoxalmente covarde e corajosa deu-lhe um certo conforto. Poderia ele definir a última vez que saudaria o sol tímido. Passou de Ausente a Offline, desligou o computador certo de que não o ligaria mais. Subiu todas as escadas do prédio receoso de que a altura não seria suficiente para concretizar sua idéia. Mas como nunca teve muita sorte, dessa vez não seria diferente.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Eu me acerto

Não pensa mais nada
No final dá tudo certo
De algum jeito
Eu me acerto, eu tropeço
E não passo do chão
Pode ir que eu agüento
Eu suporto a colisão
Da verdade
Na contra-mão...

" Certas músicas dizem tanto sobre mim, que eu me pergunto... como não fui eu que fiz? "

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Mãe.

Por onde começar a descrever aquela que é responsável pela minha existência? Começar pelo começo é de fato um tanto quanto clichê, mas nesse caso um clichê muito bem empregado. O útero, a primeira grande representação dessa mulher. O desenvolvimento, a alimentação facilitada, o calor e tantas outras funções biológicas necessárias para uma gestação. Depois desses 9 meses de pura mordomia, houve então o inevitável trauma do nascimento. E agora, José? A comida facilitada acabou, o calor acabou, agora você precisa chorar para que ela atenda suas necessidades. E desde então foi assim, ela esteve sempre ali. Aprendendo as musiquinhas infantis mais irritantes, comparecendo as reuniões mais desinteressantes, correndo com o chinelo atrás da "filha da puta" pentelha. Lá se foi a infância, divertidíssima por sinal. Mas foi na fase mais ingrata e mais reveladora que ela tornou-se não só aquela que protege,mas a que conversa, que entende, que conversa sobre o não entender, que quer ser feliz independente de tudo e de todos. E que com essa força conquistou minha total admiração. Mostrando-me sua coragem e até mesmo sua fragilidade, grande parte do que sou, do que gosto, do que penso, devo a ela. A que é e sempre será meu maior exemplo, embora ela mesma diga que não vive pra ser exemplo de ninguém. E contrariando todas as regras da rotina, digo que a amo, infinitamente.